
Mas nesse dia Luís despachou-se cedo de um cliente que por acaso até tinha o escritório perto da casa da sua namorada. Ainda para mais ele sabia que ela estava em casa a terminar um trabalho para o doutoramento, e bem decidido, bem feito! Iria ter cerca de uma hora livre e numa hora pode-se fazer muita coisa... mas mesmo muita coisa! Basta crer, basta querer... e agir!
E ele agiu! Conseguiu estacionar, saiu do carro, tocou à campainha, subiu as escadas e encontrou-a sedutora no contraluz da porta! Ninguém diria que haviam estado juntos no dia anterior: abraçaram-se como se não se vissem há muito tempo, rolaram para dentro de casa, um pequeno empurrão com o pé fechou a porta da rua, de seguida a roupa de um e de outro foi ficando pelo chão do hall, do corredor, da entrada do quarto... acabaram num sítio muito familiar para os dois...
No êxtase do momento nem se deram conta das manifestações sonoras que ambos produziram. E muito menos que a impetuosidade com que ele atirara o casaco para cima de uma cadeira tenha ligado o telemóvel precisamente na última chamada que Luís havia feito... Adivinhem para quem? Exactamente! Para o chefe controlador, minhoquinhas e chato... Luís recebeu um telefonema ao fim de poucos minutos e percebeu logo o que se tinha passado. «Estava frito», pensou, «o chefe nunca lhe iria perdoar um devaneio daqueles à hora de serviço!».
Se houvesse uma segunda oportunidade naquele momento entre Luís e a namorada com certeza que ele não iria corresponder, tão nervoso ficou! Saiu esbaforido, esqueceu a gravata mas o importante era apresentar-se ao chefe o mais rápido possível. Aquele emprego era tão importante para ele! Mas não havia muito para explicar, os factos estavam ali...
«Luís!», gritou o chefe ditador, «a sua sorte foi não ter feito a última chamada para um cliente!». Luís encolheu-se e já se imaginava a procurar emprego nos anúncios de jornal quando o chefe baixou o tom de voz e disse-lhe quase em surdina: «Gostei do desempenho! Está promovido! E tire o resto do dia para si!!!»