sábado, 1 de novembro de 2008

DUAS HISTÓRIAS NO DIA DE TODOS-OS-SANTOS!

«UM SANTINHO POR DEUS!»

No dia 1 de Novembro numa pequena aldeia do Alto Alentejo as crianças tinham por hábito ir de porta em porta pedir não o «pão por Deus» mas «um santinho por Deus»! O objectivo era o mesmo, claro: conseguir que as pessoas lhes dessem alguma coisa, geralmente de comer, fossem nozes, romãs, laranjas, castanhas, broas ou só pão!

As crianças filhas das famílias mais pobres esperavam sempre por este dia com muita ansiedade: além de fazerem algo diferente, tinham a possibilidade de comer mais qualquer coisa que as parcas comiditas do dia-a-dia. Para algumas era mesmo a oportunidade de provarem iguarias que nunca tinham provado ou que raramente provavam.

Mas quando chegavam às portas das famílias mais abastadas muitas vezes ficavam desiludidas com as «ofertas»: os mais abastados na aldeia muitas vezes não davam mais que romãs ou laranjas podres, nozes do chão - e só uma a cada um - e restos de pão, que «nem se dava aos porcos!». Era das famílias mais pobres que as crianças recebiam as maiores «riquezas»: pão do dia, broas, romãs sãs e às vezes até pequenas moedas!

(aqui faço uma pequena homenagem à Rute (16 anos), à irmã e amigas que - mesmo na cidade grande - tiveram coragem de manter viva a tradição do «Pão por Deus»!)

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«AJUDEM-ME AQUI TODOS OS SANTOS»


O meu avô paterno - ele sim, um exímio contador de histórias - contava sempre a mesma história no dia 1 de Novembro:

«Havia um moleiro lá na aldeia que carregava sempre o seu burrito até mais não caber em cima do pobre animal. Contudo, era um homem muito religioso, os nomes dos santos andavam sempre na ponta da sua língua. Um certo dia ele tinha uma carga jeitosa para carregar no burrito... mas a idade já não perdoava, aquilo que ele facilmente uns anos antes, agora tinha alguma dificuldade: pôs os braços por baixo da carga, concentrou-se, fez força, apelou a todos os santos, «Ajudem-me aqui todos os Santos, Sto. António, S. Pedro, S. João...», e mais um rol de nomes de santos que nem um padre se lembraria com certeza!

Mas tanta força o velho moleiro fez que não só conseguiu pôr a carga em cima do burro como com o balanço a carga foi parar ao chão do outro lado do burro... A transpirar em virtude do esforço o moleiro então amaldiç
oou os santos a que tinha apelado: «Bom, também não eram precisos tantos... (os santos!)»!»

Ouvi a mesma história de sempre pela última vez há 7 anos... Dias depois o meu avô decidiu que chegara a sua hora de viajar...

5 comentários:

tulipa disse...

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Que o silêncio me embale,
nesta noite
em que falta
o abraço quente de um amigo...

Enrodilho-me nas asas do meu anjo invisível.
- Anjo,
cantas-me uma canção?



Beijos
e
abraços.

mariam disse...

encantada fiquei.
um grande grande abraço, Alexandre
e um sorriso, daqueles que os olhos brilham :)

mariam

Lia disse...

Aprendemos muito com os avós ...são Mestres;0)As tuas histórias encantam!;0)Agora sei,foste buscar "essa"veia da escrita ao teu avô!
Beijo e um raio de Sol****

Ezul disse...

Também acredito que fizeram uma viagem. Por isso observo o horizonte, para descobrir vestígios mágicos do seu percurso. Uns eram contadores de histórias, outros eram feiticeiros e dos seus dedos nasciam estrelas de luz…

Uma semana luminosa!

girassol disse...

Eu não tive um avô mas um Pai que contava estórias fabulosas que nos encantavam. Sentava-nos ao colo e em volta dele e... acontecia a magia que nos encantava (ME encantava!!!:::) ao testemunho de uma lareira que ajudava a aquecer os dias frios no Alentejo. Agora também já não existe, não porque ele tivesse decidido mas porque assim aconteceu e pronto. Agora vive dentro de mim, em mim, no vento que me empurra as asas com que me ensinou a voar.

Gostei dos seus escritos, Alexandre.